BIM não resolve tudo sozinho. A ferramenta só entrega compatibilização real e projeto sem conflito quando toda a cadeia envolvida, arquitetura, estrutura e demais projetos complementares, tem competência técnica suficiente pra usar o modelo direito. Sem isso, os mesmos erros de sempre continuam acontecendo, só que agora escondidos dentro de um modelo tridimensional bonito.
É essa a resposta curta pra quem já ouviu alguém prometer que BIM ia acabar com os conflitos na obra, ou já recebeu um projeto em BIM que, na prática, não resolveu quase nada dos problemas que deveria resolver. Nos últimos anos ficou quase impossível falar de projeto sem alguém mencionar BIM como se fosse a resposta definitiva pra tudo. O mercado criou em torno da ferramenta uma expectativa que ela nunca poderia cumprir sozinha, por melhor que seja a tecnologia por trás dela.
BIM é tão bom quanto quem o usa
A realidade é mais simples do que o discurso ao redor da ferramenta sugere: BIM é tão bom quanto o profissional que está por trás dele. Um projetista experiente usando BIM entrega mais, com mais precisão e mais rapidez. Um projetista sem base técnica sólida usando BIM comete exatamente os mesmos erros de sempre, só que agora dentro de um modelo tridimensional, o que às vezes até dificulta enxergar o problema.
E quando toda a cadeia de projetos envolvida numa obra não está no mesmo nível de maturidade com a ferramenta, a compatibilização automática que era pra acontecer simplesmente não acontece na prática. A obra segue com os mesmos conflitos de sempre, só que agora com um arquivo a mais circulando no servidor da construtora.
Em mais de 25 projetos estruturais entregues pela Promab, somando 65.000 m² projetados entre concreto armado, protendido e estrutura metálica, essa diferença aparece direto. Os projetos que saem redondos, com BIM ou sem BIM, são justamente aqueles em que todo mundo envolvido, do arquiteto ao instalador, entende o que está fazendo e revisa o que recebe. A ferramenta ajuda, mas não substitui esse cuidado.
O "BIM de fachada" é mais comum do que parece
A adoção de BIM no Brasil vem crescendo rápido no papel, mais que dobrou entre 2018 e 2024. O problema aparece quando se olha pra fase de execução, na obra de verdade, não só no projeto. Aí a adoção despenca, porque a grande maioria das empresas usa BIM somente durante a etapa de projeto, ali no computador do escritório, e na hora de levantar a obra todo mundo volta pra prancha 2D de sempre. Existe até um apelido pra esse tipo de escritório: BIM de fachada. Vende modelo bonito no portfólio, mostra render tridimensional pro cliente, mas na hora de mandar o projeto pra outra disciplina, achata tudo num PDF ou DWG, sem compartilhar a inteligência real do modelo. Um projeto assim tem toda a aparência de BIM e nenhum dos benefícios reais dele.
O furo que ninguém viu até a obra parar
Um exemplo comum ilustra bem o risco de cada disciplina trabalhar isolada, mesmo com BIM na mesa. O arquiteto desenha um furo numa laje pra passar um duto de ventilação. Como cada disciplina modela por conta própria, sem revisão cruzada de verdade entre elas, o projetista de instalações desenha o mesmo furo, só que um pouco fora do eixo. Ninguém percebe isso durante o projeto. A diferença só aparece meses depois, na obra, quando a estrutura já está pronta e a tubulação simplesmente não passa naquele espaço. É exatamente esse tipo de furo desalinhado que uma boa revisão de compatibilização, com BIM ou sem BIM, existe pra pegar antes da obra começar, não depois.
Do CAD sem informação até todo mundo no mesmo modelo
Uma escala de maturidade que vai de zero a três ajuda a entender por que tanto escritório vende BIM e entrega BIM de fachada. No nível zero, cada disciplina desenha isolada, sem informação nenhuma embutida no desenho, o clássico desenho técnico bidimensional. No nível um, cada escritório já modela em três dimensões, mas por conta própria, sem compartilhar esse modelo vivo com as outras disciplinas envolvidas na obra, é o BIM de fachada disfarçado de avanço tecnológico. No nível dois, os times já trocam modelos entre si e existe alguma coordenação real, ainda que cada um trabalhe separado a maior parte do tempo. E no nível três, todo mundo projeta dentro do mesmo modelo, ao mesmo tempo, com os mesmos padrões de informação, o que na teoria é o que o mercado promete e na prática é raríssimo de encontrar. A maior parte das obras no Brasil, mesmo as que dizem trabalhar com BIM, ainda está presa no nível um. Saber em qual desses níveis o seu projeto realmente está ajuda a calibrar a expectativa antes de cobrar um resultado que a maturidade atual do processo simplesmente não entrega.
Ferramenta não substitui competência técnica
Ferramenta nunca substituiu competência, e continua não substituindo. O que resolve obra, de verdade, é projeto correto, prazo cumprido e alguém disponível quando o canteiro precisar de resposta rápida. Isso vale com BIM ou sem BIM, com qualquer software que o mercado lance daqui pra frente.
Boa parte da frustração em torno do BIM nem vem da ferramenta em si, vem da expectativa. Quem contrata costuma achar que BIM resolve tudo sozinho, quase por mágica, e quem projeta entrega o melhor que consegue dentro do prazo e do escopo que foi combinado. Alinhar o que se espera do modelo antes de começar, não só quais softwares vão ser usados, evita boa parte da frustração dos dois lados mais adiante.
Existe ainda um motivo prático pra tanta gente parar na metade do caminho com BIM. Levar um modelo até o nível de detalhamento mais alto, com cada elemento especificado como vai ser de fato fabricado e montado, dá um trabalho grande pra quem projeta. Só que quem colhe o benefício desse detalhamento, menos erro e menos retrabalho na obra, é o construtor e o dono do empreendimento, não quem desenhou. Sem esse trabalho extra ser reconhecido no escopo e no valor combinado, o incentivo pra fazer esse nível de detalhe simplesmente não existe. Antes de exigir BIM num projeto, então, vale alinhar não só a ferramenta, mas o que cada parte espera entregar e receber com ela.
Onde o BIM realmente ajuda
Isso não significa que BIM não tenha valor real. A modelagem tridimensional ajuda bastante na visualização de interferências entre disciplinas e facilita a comunicação entre equipes que trabalham com representações diferentes. Mas esse valor só aparece quando existe uma base técnica sólida por trás da modelagem, não como substituto dela.
Como aproveitar o BIM de verdade
Quando toda a cadeia de projeto está alinhada, BIM funciona muito bem como ferramenta de visualização e comunicação entre disciplinas, ajudando a identificar interferências antes da obra começar. O ganho real aparece quando o investimento em ferramenta vem acompanhado de investimento em processo: definir desde o início quem revisa o modelo, com que frequência e o que fazer quando uma interferência é identificada, em vez de simplesmente confiar que o software vai resolver tudo sozinho.
Outro ponto que faz diferença na prática é combinar o nível de detalhe esperado pra cada fase do projeto, em vez de modelar tudo no mesmo grau de precisão o tempo todo. No estudo preliminar, faz sentido um modelo simples, só pra validar volumetria e posicionamento. Já no projeto executivo, aí sim vale detalhar cada elemento com a precisão que a obra vai exigir. Modelar detalhe demais numa fase que ainda vai mudar é tempo jogado fora, e modelar de menos numa fase que já devia estar fechada é onde moram os furos desalinhados e as interferências que só aparecem na obra. Definir isso junto com quem contrata, antes de começar, é o que separa um BIM que realmente ajuda de um que só engorda o cronograma.
O que perguntar antes de exigir BIM num projeto
Antes de exigir que um projeto seja entregue em BIM, vale perguntar: toda a equipe envolvida no projeto, de todas as disciplinas, está realmente preparada pra trabalhar nesse ambiente com a mesma maturidade técnica? Se a resposta for não, o resultado tende a ser um modelo tridimensional bonito, mas com os mesmos conflitos de sempre escondidos dentro dele.
A tecnologia muda a cada poucos anos, com uma sigla nova prometendo resolver o que a anterior não resolveu. Competência técnica, prazo cumprido e alguém disponível pro canteiro continuam sendo o que decide se uma obra sai do papel sem virar dor de cabeça.
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