Existe uma situação que aparece com mais frequência do que deveria nas obras. O canteiro recebe o projeto estrutural e o projeto arquitetônico e tenta conciliar, na prática, o que ninguém conciliou antes, durante a fase de projeto.
De onde vêm os problemas de verdade
A maioria dos problemas que surgem nessa hora não vem de um projeto mal feito. Vem de falta de diálogo entre as partes envolvidas. O calculista resolve a estrutura do jeito que a estrutura pede, sem saber exatamente o que o arquiteto pensou pra aquele espaço. O arquiteto fecha o projeto sem saber o que a estrutura vai efetivamente precisar. E o canteiro recebe os dois projetos prontos e tenta resolver as divergências sozinho, no meio da execução.
Quando existe comunicação entre as duas partes desde o início do projeto, divergências que seriam surpresa na obra viram conversa antes do projeto fechar. E conversa, ao contrário de uma incompatibilidade descoberta em obra, tem solução simples e barata.
Como essa conversa deveria funcionar
Quando o projeto estrutural aponta que vai precisar de um elemento que interfere na arquitetura, seja um pilar num ponto específico ou uma viga que reduz o pé-direito em algum trecho, a primeira conversa deveria ser com o arquiteto responsável, ainda na fase de concepção. Apresentar o que a estrutura precisa, ouvir o que o projeto arquitetônico não pode abrir mão e buscar uma saída que funcione pros dois lados é bem mais barato do que qualquer alternativa descoberta depois.
O que não deveria acontecer é a estrutura aparecer como surpresa depois que o projeto arquitetônico já estava fechado e aprovado, forçando ajustes de última hora que raramente agradam qualquer uma das partes envolvidas.
Um hábito simples que evita muito retrabalho
Isso não exige nenhuma ferramenta sofisticada nem processo complicado. Muitas vezes basta uma conversa direta, ainda no estudo preliminar, sobre onde ficam os pontos de apoio previstos, quais vãos são inegociáveis do ponto de vista arquitetônico e onde existe flexibilidade pra ajustar. Essa troca simples evita boa parte dos conflitos que normalmente só aparecem quando já é tarde pra mudar sem custo.
Um exemplo do que essa conversa evita
Já recebemos projetos arquitetônicos com um pé-direito reduzido num ambiente específico, sem que isso tivesse sido pensado em conjunto com a estrutura. Nesses casos, uma viga de altura convencional simplesmente não cabia no espaço previsto. Se essa conversa tivesse acontecido antes, teria sido possível ajustar o posicionamento da viga ou prever uma altura menor desde a concepção, sem nenhum impacto visual na arquitetura final. Descoberto só na obra, o mesmo ajuste custa tempo, retrabalho e, às vezes, uma solução mais cara do que seria necessário.
Comunicação como parte do processo, não exceção
Acreditamos que a base de qualquer projeto bem executado é a comunicação constante entre quem projeta a arquitetura e quem projeta a estrutura, não uma troca pontual resolvida só quando um problema já apareceu. Projetos que nascem dessa forma, com diálogo desde o início, chegam ao canteiro com muito menos superfície pra conflito.
Comunicação entre disciplinas não substitui a competência técnica de nenhuma das partes. Mas é o que garante que essa competência chegue inteira até a obra, sem se perder no meio do caminho por falta de uma conversa que poderia ter acontecido semanas antes.
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